Visitando o próprio velório
Há um pensamento que não me abandona desde a infância. Sem mais nem menos, independentemente do meu estado de espírito, eu me flagro imaginando meu próprio velório. Está lá o defunto (no caso, eu) deitado no caixão, vestindo um terno impecável e rodeado de mulheres chorando e homens sisudos com cara de pêsames.
Aqui, um parênteses: por que o terno? Aliás, se eu morresse hoje, iriam ter que comprar um terno pra mim, porque os que eu tenho não combinam com a ocasião. São todos meio alegres demais, com cara de festa. Mas, de novo, por que o terno? Não dava pra me enterrar de camiseta, por exemplo? No mínimo, seria muito mais prático pro pessoal que prepara o defunto. E pros bichos também. Da cintura pra baixo, eu poderia estar de cueca apenas. Por que não? Ora, é assim que eu durmo. Nada mais natural que, para o sono eterno, eu também esteja vestido assim.
Mas tudo bem. O que me intriga mesmo no meu futuro velório são as pessoas em volta do caixão. Quem iria ao meu velório? Quais seriam as reações de cada um? Será que as ex-mulheres iriam? E a atual? Qual seria a reação dela? E os amigos? Qual deles ficaria mais triste?
Velório que se preze tem sempre uma surpresa. Uma mulher que ninguém conhece chorando copiosamente, despertando ciúmes na família do falecido. Imagino minha mãe cutucando minha irmã: “Quem é aquela ali?”
Outra surpresa comum é aquela pessoa que não chora. E todo mundo fica olhando pra ela com cara feia: “Insensível!” Ou então: “Dizia que adorava ele e, no entanto, olha aí, não derrama uma lágrima!”
E se pintar uma briga então? Ótimo! Sogra com nora, mãe com cunhada etc. Os nervos à flor da pele, coisa mais fácil é alguém encrespar com alguém. Acertar as contas, tipo: “eu nunca gostei de você, não preciso mais esconder isso!”
Você já parou pra pensar no seu velório? É legal, você acaba descobrindo algumas coisas interessantes. Descobre até que você não gostaria de estar nele.
Escrito por Turma do Bar do Zé às 11h29
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